Como a indústria de autopeças da Argentina passou a sofrer com a 'terapia de choque' de Milei
Trabalhador na Suspenmec Irina Dambrauskas/Reuters Dentro de uma pequena fábrica familiar de autopeças nos arredores de Buenos Aires, na Argentina, as linhas de produção desaceleraram. A fábrica opera abaixo de sua capacidade, enquanto a empresa, a Suspenmec, tenta competir com a entrada maciça de peças importadas mais baratas, especialmente as vindas da China. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 Carros no WhatsApp A mudança no mercado argentino aconteceu após afrouxar de forma significativa as regras do comércio exterior. As vendas da empresa caíram cerca de 30% neste ano. A Suspenmec produz aproximadamente 600 tipos de componentes para sistemas de suspensão. Vídeos em alta no g1 As reformas econômicas adotadas pelo presidente Javier Milei — como a redução das barreiras às importações e a política de um peso mais valorizado — ajudaram a estabilizar a economia. No entanto, para muitas pequenas e médias indústrias, que durante anos estiveram protegidas da concorrência externa, a mudança foi rápida e difícil. As importações de autopeças cresceram 11,6% em 2025 em relação ao ano anterior, alcançando cerca de US$ 10,32 bilhões, segundo dados da entidade do setor AFAC. As importações provenientes da China, por sua vez, cresceram 80,9% no mesmo período, atingindo US$ 1,46 bilhão — embora o Brasil continue sendo o principal fornecedor. “É preocupante. Sentimos o impacto das importações livres de tarifas de tantas marcas”, disse Lucas Panarotti, sócio da Suspenmec, ao lado de máquinas paradas na fábrica. Outros fabricantes de autopeças, como a sueca SKF e a norte-americana Dana, fecharam algumas de suas unidades na Argentina. Trabalhadores na Suspenmec Irina Dambrauskas/Reuters As dificuldades enfrentadas pelos produtores locais se refletem na queda da produção de autopeças, que recuou 22,5% nos dois primeiros meses deste ano em comparação com o mesmo período de 2025, segundo o instituto oficial de estatísticas INDEC, que não informou os volumes produzidos. A produção de veículos, que chegou a 490 mil unidades em 2025, caiu 19% no primeiro trimestre de 2026 em comparação com o mesmo período do ano anterior. “É um ponto de inflexão. Entramos muito rapidamente em um novo ecossistema, no qual a abertura da economia e do comércio internacional passou a pressionar as empresas industriais argentinas”, afirmou Nicolas Ballestrero, CEO do Grupo Corven, que registrou queda na produção e nas exportações neste ano. Especialistas afirmam que, para se adaptar, a indústria automotiva argentina precisa se especializar mais e ampliar suas exportações. Andres Civetta, economista especializado no setor industrial da consultoria Abeceb, estima que, no futuro, o país poderia exportar cerca de 400 mil veículos comerciais leves por ano — acima dos aproximadamente 280 mil enviados no ano passado — principalmente para o Brasil e outros mercados da América Latina. O governo argentino não respondeu ao pedido de comentário. Equilíbrio delicado para Milei A situação no setor de autopeças reflete uma tendência mais ampla, que favorece grandes exportadores de commodities, enquanto boa parte da indústria argentina voltada ao mercado interno enfrenta dificuldades. Funcionário da Suspenmec Irina Dambrauskas/Reuters Embora o superávit comercial do país sul-americano tenha aumentado para US$ 2,5 bilhões em março, 24.180 empresas — cerca de 5% do total em operação — fecharam as portas entre novembro de 2023, pouco antes de Milei assumir com uma agenda libertária de direita, e janeiro deste ano, segundo a consultoria Fundar. Dados do INDEC indicam que a atividade econômica caiu 2,1% em fevereiro na comparação anual, enquanto setores como mineração, agropecuária e pesca registraram crescimento entre 8% e 15%. A indústria de transformação, no entanto, recuou 8,7%, e o comércio varejista teve queda de 7%. “Com um peso que se valorizou 10% em relação a dezembro passado, o que implica uma inflação em dólar de 10%, haverá muitas dificuldades para empresas que produzem e competem com importados conseguirem ter sucesso”, disse Ricardo Delgado, economista que dirige a consultoria Analytica. Delgado, que projeta um crescimento econômico de cerca de 2% na Argentina em 2026, afirmou que o principal problema é que os setores mais prejudicados pelo modelo econômico de Milei geram mais empregos e arrecadação de impostos do que outros, o que pode comprometer o superávit fiscal defendido pelo governo. Esse cenário representa um equilíbrio delicado para Milei às vésperas de sua tentativa de reeleição. Uma pesquisa da consultoria Giacobbe & Associates indica taxa de aprovação de 36%, quase seis pontos percentuais abaixo do registrado em março. O índice de confiança no governo, calculado pela Universidade Torcuato Di Tella, caiu para 2 pontos em abril, uma queda de 12% em relação ao mês anterior. O indicador é medido em uma escala de zero a 5. As fábricas também enfrentam pressão devido à demanda enfraquecida, depois que o programa de austeridade adotado por Mil

Trabalhador na Suspenmec Irina Dambrauskas/Reuters Dentro de uma pequena fábrica familiar de autopeças nos arredores de Buenos Aires, na Argentina, as linhas de produção desaceleraram. A fábrica opera abaixo de sua capacidade, enquanto a empresa, a Suspenmec, tenta competir com a entrada maciça de peças importadas mais baratas, especialmente as vindas da China. ✅ Clique aqui para seguir o canal do g1 Carros no WhatsApp A mudança no mercado argentino aconteceu após afrouxar de forma significativa as regras do comércio exterior. As vendas da empresa caíram cerca de 30% neste ano. A Suspenmec produz aproximadamente 600 tipos de componentes para sistemas de suspensão. Vídeos em alta no g1 As reformas econômicas adotadas pelo presidente Javier Milei — como a redução das barreiras às importações e a política de um peso mais valorizado — ajudaram a estabilizar a economia. No entanto, para muitas pequenas e médias indústrias, que durante anos estiveram protegidas da concorrência externa, a mudança foi rápida e difícil. As importações de autopeças cresceram 11,6% em 2025 em relação ao ano anterior, alcançando cerca de US$ 10,32 bilhões, segundo dados da entidade do setor AFAC. As importações provenientes da China, por sua vez, cresceram 80,9% no mesmo período, atingindo US$ 1,46 bilhão — embora o Brasil continue sendo o principal fornecedor. “É preocupante. Sentimos o impacto das importações livres de tarifas de tantas marcas”, disse Lucas Panarotti, sócio da Suspenmec, ao lado de máquinas paradas na fábrica. Outros fabricantes de autopeças, como a sueca SKF e a norte-americana Dana, fecharam algumas de suas unidades na Argentina. Trabalhadores na Suspenmec Irina Dambrauskas/Reuters As dificuldades enfrentadas pelos produtores locais se refletem na queda da produção de autopeças, que recuou 22,5% nos dois primeiros meses deste ano em comparação com o mesmo período de 2025, segundo o instituto oficial de estatísticas INDEC, que não informou os volumes produzidos. A produção de veículos, que chegou a 490 mil unidades em 2025, caiu 19% no primeiro trimestre de 2026 em comparação com o mesmo período do ano anterior. “É um ponto de inflexão. Entramos muito rapidamente em um novo ecossistema, no qual a abertura da economia e do comércio internacional passou a pressionar as empresas industriais argentinas”, afirmou Nicolas Ballestrero, CEO do Grupo Corven, que registrou queda na produção e nas exportações neste ano. Especialistas afirmam que, para se adaptar, a indústria automotiva argentina precisa se especializar mais e ampliar suas exportações. Andres Civetta, economista especializado no setor industrial da consultoria Abeceb, estima que, no futuro, o país poderia exportar cerca de 400 mil veículos comerciais leves por ano — acima dos aproximadamente 280 mil enviados no ano passado — principalmente para o Brasil e outros mercados da América Latina. O governo argentino não respondeu ao pedido de comentário. Equilíbrio delicado para Milei A situação no setor de autopeças reflete uma tendência mais ampla, que favorece grandes exportadores de commodities, enquanto boa parte da indústria argentina voltada ao mercado interno enfrenta dificuldades. Funcionário da Suspenmec Irina Dambrauskas/Reuters Embora o superávit comercial do país sul-americano tenha aumentado para US$ 2,5 bilhões em março, 24.180 empresas — cerca de 5% do total em operação — fecharam as portas entre novembro de 2023, pouco antes de Milei assumir com uma agenda libertária de direita, e janeiro deste ano, segundo a consultoria Fundar. Dados do INDEC indicam que a atividade econômica caiu 2,1% em fevereiro na comparação anual, enquanto setores como mineração, agropecuária e pesca registraram crescimento entre 8% e 15%. A indústria de transformação, no entanto, recuou 8,7%, e o comércio varejista teve queda de 7%. “Com um peso que se valorizou 10% em relação a dezembro passado, o que implica uma inflação em dólar de 10%, haverá muitas dificuldades para empresas que produzem e competem com importados conseguirem ter sucesso”, disse Ricardo Delgado, economista que dirige a consultoria Analytica. Delgado, que projeta um crescimento econômico de cerca de 2% na Argentina em 2026, afirmou que o principal problema é que os setores mais prejudicados pelo modelo econômico de Milei geram mais empregos e arrecadação de impostos do que outros, o que pode comprometer o superávit fiscal defendido pelo governo. Esse cenário representa um equilíbrio delicado para Milei às vésperas de sua tentativa de reeleição. Uma pesquisa da consultoria Giacobbe & Associates indica taxa de aprovação de 36%, quase seis pontos percentuais abaixo do registrado em março. O índice de confiança no governo, calculado pela Universidade Torcuato Di Tella, caiu para 2 pontos em abril, uma queda de 12% em relação ao mês anterior. O indicador é medido em uma escala de zero a 5. As fábricas também enfrentam pressão devido à demanda enfraquecida, depois que o programa de austeridade adotado por Milei para conter a inflação reduziu o poder de compra dos argentinos. Lucas Panarotti, parceiro da Suspenmec Irina Dambrauskas/Reuters A desaceleração também atingiu o mercado de trabalho. A taxa de desemprego subiu para 7,5% no quarto trimestre de 2025, frente a 6,4% um ano antes. Somente o setor de autopeças perdeu cerca de 5 mil postos de trabalho em 2025 — o equivalente a 10% de sua força de trabalho — segundo dados da AFAC. Analistas afirmam que o desemprego seria ainda maior se não fosse a migração de trabalhadores demitidos para a informalidade, como atividades ligadas a aplicativos de transporte.
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